Deixa as pessoas fazerem as escolhas delas

Escrito por: Fernanda Marinho

Sabe quando alguém conta que é vegano, ou que não quer ter filhos, ou que vive um relacionamento aberto, e outro alguém vem listar os motivos pelos quais aquela não é uma boa escolha ou então fala “você está falando isso agora, mas…”? Não seja essa pessoa.

Quem faz qualquer escolha um pouco fora do senso comum sabe do que estou falando. Geralmente estamos lá, vivendo nossa própria vida, sem dar pitaco em como os outros devem viver a deles, e alguém te faz uma pergunta, que faz com que você tenha que responder contando sobre suas escolhas, e então se prepara… Lá vem a lista de motivos pelos quais você não devia fazer aquilo.

Já aconteceu comigo tantas vezes que perdi a conta. É só eu contar alguma das coisas abaixo para ouvir uma variação do que está em parênteses:

– Não quero ter filhos (daqui a pouco o relógio biológico apita, você fala isso agora, mulher não é completa até ter filho, é uma sensação maravilhosa)

– Não faço mais as unhas (parece desleixada, unhas ficam fracas, mas é tão rapidinho)

– Não pinto meus cabelos brancos (vai ficar com cara de velha, você fala isso agora mas quero ver daqui a algum tempo, parece desleixo)

– Busco o consumo consciente (mas outro dia você comprou tal coisa, que vida sem graça, para que você trabalha então)

Etc. Etc.

Eu acho até normal quando as pessoas perguntam seus motivos. Faz sentido elas quererem saber por que alguém optou por algo que não é o mais comum. O problema é que nem sempre para por aí. É como se nossas escolhas diferentes do padrão fossem uma críticas às escolhas delas. Talvez porque nunca pararam para pensar que teria um jeito diferente de viver a vida. Então elas se sentem afrontadas e querem logo deslegitimar a sua escolha, para que  não tenham que lidar com o fato de que há opções, e possam ter a consciência tranquila de ter seguido o único modelo de vida possível.

Mas isso não é legal. Se você não quer aquilo para a sua vida, por quaisquer motivos que sejam, simplesmente não faça.

Se você ama carne e acha super importante para a saúde, coma carne. Se você não gosta de cabelo branco e acha importante parecer ser jovem, pinte o cabelo. Se você acredita que relacionamento aberto não funciona, não tenha um relacionamento aberto. Mas deixa as pessoas fazerem o que elas querem da vida delas. Vamos buscar respeitar as escolhas dos outros.

Nem sempre é fácil. A gente costuma muito se colocar como parâmetro de tudo, e achar que nossas escolhas são melhores do que as dos outros. Afinal, nós as escolhemos. Já falei sobre isso aqui. Mas tem espaço no mundo para todos. E, na verdade, a vida fica até mais interessante com as diferenças.

 

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18 Comentários

  1. Debora Barros disse:

    Eu acho que no geral nem rola isso da pessoa achar que é uma crítica às escolhas dela, acho que só dá um tilt no cérebro acostumado a seguir padrões. Ela não faz esse questionamento sobre as próprias escolhas, apenas reage automaticamente contra, não consegue (e talvez não queira porque isso não é um problema pra ela) pensar em alternativas. Sem contar o nosso hábito cultural de achar que não há nada de mal em fazer perguntas invasivas e ser insistente. Enquanto isso a gente que faz escolhas diferentes temos que ter paciência. E comigo acontece um caso curioso, as pessoas até entendem e aceitam eu não querer ter filhos mas não ter um carro é um pecado pra elas.

    1. Pode ser mesmo, Debora. E as pessoas são invasivas mesmo. Até quem faz as escolhas esperadas passa por isso. Se casou, perguntam de filho. Se já tem um, perguntam do próximo. Não termina nunca. Hehe… Por isso que nem vale a pena dar trela… Realmente a cultura do carro é muito forte. Imagino a encheção de saco que você passa. Dureza…

  2. Lu Monte disse:

    Tento com todas as forças não ser essa pessoa. Ainda me lembro da primeira vez em que comentei – pra minha então melhor amiga! – que desejava adotar o minimalismo. A resposta dela foi super defensiva, como se eu estivesse atacando seu estilo de vida, e não simplesmente tentando mudar o meu.

    1. Pois é, Lu! Eu também tento. Tem vezes até que me pego com o instinto, mas luto contra ele justamente porque sei que é chato e não faz bem pra ninguém.

  3. Anne Carvalho disse:

    Nossa, desde quando virei vegana, há uns 8 meses, convivo com isso direto. Desde pessoas que fazem perguntas por curiosidade mesmo (essas eu gosto, e sempre explico como e porquê de muito bom grado), passando por aquelas que acham que sabem tudo sobre nutrição, mesmo sem nunca terem estudado o assunto, e se sentem bem capazes de me dar conselhos pelo bem da minha saúde (mesmo que elas mesmas se entupam de frituras, doces e refrigerantes), até aquelas que fazem piadinhas e ridicularizam a minha decisão!! Essa últimas, eu aprendi que não adianta nem tentar conversar, o melhor mesmo é ignorar…
    E, sim, tenho me policiado cada vez mais pra não me tornar uma dessas, em relação aos assuntos dos outros.

    1. Sabe que eu pensei em você ao escrever o texto. Você comentou uns posts atrás sobre ter virado vegana e eu quase fui comentar que concordo com os valores, mas não sou vegana ainda por isso, isso e aquilo. Só que aí eu ia me explicar e não tem por quê. São coisas de momento da minha vida, de escolhas que posso e quero fazer agora… E de coração fico feliz por você estar vivendo de acordo com o que acredita. Eu um dia quero chegar lá também. Então pra que ir me explicar? Consegui não ser essa pessoa. Hehe…

      1. Anne Carvalho disse:

        hahahahaha… verdade!!!

  4. Bruna disse:

    O Alex castro fala mto sobre exercer a não opinião e venho aprendendo mto sobre isso. Depois veja o texto:https://papodehomem.com.br/exercer-a-nao-opiniao-or-exercicio-de-empatia-6/

    1. Adoooro os textos do Alex Castro. Sou leitora assídua e concordo demais com esse texto dele! Obrigada por compartilhar aqui 🙂

  5. Nélio Oliveira disse:

    A atividade que tem mais praticantes na nossa sociedade é a de “sommelier da vida alheia”. Quando topo com um desses, geralmente o convido a participar da Campanha Pela Vida, cujo lema é “cada um cuida da sua”.

    1. Hahahaha… Muito bom, Nélio! Tem isso demais mesmo.

  6. Bia disse:

    Concordo plenamente. Faça o que quiser só não encha meu saco .

    Sei lá é bem desagradável quando a pessoa nem conhece seus motivos, nem quer ao menos saber e já te julga.

    Faço aula de dança a noite … fiquei um tempo sem ir, uma moça que mal me conhece já chegou com cara de desdem: nossa vc aqui ???? achei q já tivesse desistido. Poxa … você sabe pq não vim? precisa mesmo fazer essa cara feia? sabe se eu tenho dinheiro pra ir? se eu estava bem ? .. eu estava em convalescença pós cirurgica …. com problemas de saúde … me limitei a sorrir amarelo e falar :”agora que voltei to firme e forte” … ninguem sabe o que o outro ta passando, ou como é a vida alheia.

    Me senti feliz de poder perceber o como podemos ser desagradáveis sem perceber, ou como EU posso ser desagradável tbm …

    1. Julgamento é sempre chato mesmo. E algumas pessoas têm essa mania de “cobrar” nossa presença. Nem sempre é por mal. Acho que é um costume muito arraigado na nossa cultura. As pessoas acham que estão até demonstrando atenção. Se você falta um compromisso, ou fala que não vai poder ir, as pessoas insistem loucamente, perguntam os motivos, e você tem que ficar se justificando. É chato mesmo. Mas é muito comum. Eu tento me policiar para não ser também desagradável, como você falou. Hehe… E procuro ter paciência com os outros, quando são.

  7. Maria disse:

    Oi Fernanda,

    De tudo o que você listou; por que você não tem filhos… é a pergunta que não cala. A segunda que me fazem muito… Porque você não dirige? Para quê então tirou carteira? Confesso, é muito cansativo. Abraço.

    Maria

    1. Muito cansativo mesmo, Maria. Ainda mais que algumas pessoas insistem para você mudar de ideia. Um saco! Abraço 😉

  8. Simplicidade e Harmonia disse:

    Fernanda,

    Muito bom o seu post.
    Precisamos aprender a aceitar as pessoas como elas são. Não é fácil, mas necessário para a boa convivência e para o nosso próprio bem estar.
    Eu acho que é bom darmos sugestões quando achamos que podemos ajudar. Se a pessoa gostou, naturalmente vai querer saber mais sobre o assunto. Mas se não quiser, não temos o direito de achar que ela tem que pensar como nós.

    E como você disse no final: o que seria do mundo sem as diferenças?

    Abraços,

    1. Que bom que você gostou do post! Concordo com você. Quando a pessoa dá abertura, claro que a gente pode dar sugestões, mas é importante saber quando parar. Obrigada pelo comentário! Abraço 🙂

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